Sete Vidas

"Um minuto pode ser todo o tempo que me resta para viver. Mas eu desperdiço o meu tempo como se ele fosse infinito."

“O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções.”

- Clarice Lispector.

(Source: floresinexatas, via chaode-giz)

“Fiz o que era mais urgente: uma prece. Rezo para achar o meu verdadeiro caminho. Mas descobri que não me entrego totalmente à prece, parece-me que sei que o verdadeiro caminho é com dor. Há uma lei secreta e para mim incompreensível: só através do sofrimento se encontra a felicidade. Tenho medo de mim pois sou sempre apta a poder sofrer. Se eu não me amar estarei perdida — porque ninguém me ama a ponto de ser eu, de me ser. Tenho que me querer para dar alguma coisa a mim. Tenho que valer alguma coisa? Oh protegei-me de mim mesma, que me persigo. Valho qualquer coisa em relação aos outros — mas em relação a mim, sou nada. É tão bom ter a quem pedir. Nem me incomodo muito se eu não for totalmente atendida. Eu peço a Deus para eu ser mais bonita — e não é que meu olho faísca ao mesmo tempo que meus lábios parecem mais doces e cheios? Eu peço a Deus tudo o que eu quero e preciso. É o que me cabe. Ser ou não ser atendida — isso não me cabe a mim, isto já é matéria-mágica que se me dá ou se retrai. Obstinada, eu rezo. Eu não tenho o poder. Tenho a prece.”

- Clarice Lispector, Um sopro de vida.

(Source: floresinexatas, via chaode-giz)

“Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outros amores. E outras pessoas. E outras coisas.”

- Caio Fernando Abreu.

(Source: reperdoar, via chaode-giz)

“Eu não sei expressar quando eu gosto de uma pessoa. Fico quieto, observando tudo o que ela diz e faz e se é algo que é direcionado a mim, sendo bom ou ruim, parece ter um peso maior.”

- Erronizar.

(Source: erronizar, via docotidiano)

by irenkapatrzy on Flickr
Foi além das mortes

Eu estava sentada, como (quase) sempre de frente para o monitor, quando um amigo comenta pelo bate-papo: “Tragédia feia aquela em Santa Maria, né? Mais de 200 mortos”. “O que??” - respondi. Estava desligada; há muito que não presto real atenção no que se mostra na TV. É quando a ligo para saber mais da tal tragédia. Tragédia… de repente se torna uma palavra simplória. Não, não exprime nada daquilo tudo, tudo que acabou, morreu. 

Nesse caso, o “saber mais” foi poder, poder sentir mais, porque “Tragédia feia aquela em Santa Maria” não abrange tudo. Não mostra a comoção das pessoas, o desrespeito de outras… Só citou a dor física: “Mais de 200 mortos…” Foi além da intoxicação, queimaduras e pisoteamentos de corpos humanos, ali foram mortos sonhos humanos, mentes que não mais teriam ideias. Por motivos idiotas mais de 200 pessoas não terão a chance de voltarem para casa, para a família, para os amores. Foi tudo derrubado como um nada.

Nós abraçaremos papai e mamãe nesse domingo, os parentes chatos irão qualquer dia desses em casa, bem naquele final de semana, mas você cairá na risada; minha irmã me dará um motivo para gritar com ela ainda hoje, e outro para beijá-la logo depois. Sim, nós ainda teremos isso. Ainda teremos livros! O filme que estreará mês que vem, um ano letivo inteiro do qual reclamar, um amigo sem noção para aconselhar. Mas quando me deparo com “algo assim”, que não me deixou dizer que todo o domingo é a mesma coisa, a minha vida parece, mais do que nunca, um castelo de  areia, e eu tenho a sensação de que uma onda logo virá para derrubá-lo.

Eu pensei em como minha mãe ficaria se fosse eu uma das vítimas, e agora que esse pensamento me veio a mente de novo, meus olhos lacrimejam, porque eu sei exatamente como ela deixa o sofrimento a envolver; você se corrói só de olhá-la. E eu lembro que o mesmo está acontecendo com aquelas famílias; saber como é que realmente entristece. Saber é poder, e eu posso sentir.

- Monique Químbely, blog literário Sete Vidas.

“O Problema não é o país, são as pessoas.”

(Source: octa-nacional, via segredosdebiblioteca)

“Joana, 17 anos.” – A voz do locutor disse. A lista das vítimas estava sendo lida em ordem alfabética para quem quisesse ouvir na porta da boate. Ontem, dia 27 de janeiro, ela havia comprado os ingressos para ir junto com os amigos à festa, que seria a primeira do ano. O pai proibiu, “Aquele lugar não é seguro, filha”. Mas ela foi, afinal não tinha nada a perder. Colocou o melhor vestido, se maquiou, calçou o salto 15 e penteou os cabelos longos. O pai a levou e ficou esperando na porta. Não queria sair de lá. Já tinha um mal pressentimento. Às duas da manhã o tumulto começou. Fumaça, gritos, confusão. O pai saiu do carro às pressas e foi barrado na porta ao querer saber o que estava acontecendo. “Ninguém entra sem pagar” o segurança falou. “Minha filha está ai, quero saber o que está acontecendo!” “Não está acontecendo nada, senhor. As comandas serão pagas e logo, logo, ela vai poder sair”. Da porta, o pai viu o espelhar do vestido de lantejoulas da filha. A voz dela gritando que precisava sair e só se ouvia “Se não pagar, não sai!” “Moço, tudo está pegando fogo, o senhor quer me cobrar?” De fora, o pai berrava tentando que a menina escutasse, e nada. Minutos depois, a voz dela se calou em meio aos gritos. Os cabelos claros caíram. A festa parou, a música tinha acabado. Os celulares começaram a tocar, o celular de Joana tocava sem parar. Era o pai que ligava, desesperado. “Vocês não me deixaram salvar a minha filha! Vocês mataram ela!” Ele gritava com os seguranças. O rosto da menina, apagado, estava dentro da boate, misturado com outros. Os familiares começaram a chegar, as lagrimas, os gritos, os telefones tocando. Era isso que se ouvia. Os celulares tocando. Todos. Dentro da boate, fora. As pessoas mortas e os celulares tocando em seus bolsos. As portas se abriram, e o pai entrou apavorado, puxando Joana para fora. Ela já havia morrido, não queimada, mas intoxicada. Seu rosto estava perfeito, doce e angelical. A maquiagem ainda brilhava. O pai chorava, e não desgrudou do corpo da filha. A bolsa da menina estava aberta, o celular tocava, e era a mãe. “Ela morreu”, o pai disse. E os dois choraram pelo telefone. Pela manhã, os corpos foram identificados e Joana foi enterrada. A dor que poderia ter sido poupada se ela tivesse escutado o pai, virou solidariedade com as famílias que passavam pela mesma situação. Na bolsa de Joana foram encontrados o celular, seus documentos e um papel que dizia “Papai e mamãe te amam, pra sempre.” E Joana se foi.”

- Marília Maia.

(Source: ziptg, via segredosdebiblioteca)

”- Houve um tempo em que eu costumava entrar nas lojas de pássaros e libertar os canários, mas desisti por achar uma ideia avançada demais para a época. Os zoológicos estão cheios e as prisões transbordando. Meu Deus, como este mundo gosta de prisões.”

- Colin Higgins, Ensina-me a Viver.

“Ninguém desconfia mas tenho tido dias escuros. Apesar de ter visto o sol brilhar a semana inteira, não fazia sentido algum os raios amarelos batendo sobre a minha cabeça. Hoje o tempo fechou e as nuvens densas e carregadas encheram o céu. E de alguma forma, revelaram o que eu sentia. Fazia dias que chovia dentro de mim e ninguém via. Não tive vontade nenhuma de sair de casa, sem ânimo de ver o mundo lá fora. (…)”

- Jéssica B.

(Source: poesia-e-fe, via poesia-e-fe)

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